quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Partilhando a minha saudade...

     Saudade
  
Há em mim uma saudade de outras eras,
Outros futuros,
Outras Primaveras…

Os meus pés anseiam pela relva fria,
Por correr descalços
Na tarde macia…

Tilinta em meu sonho o cantar das águas
Que no seu cantar
Desfazem as mágoas..

Estendo os meus braços e não acho o verde,
O verde de jade
Que no mar se perde…

No veludo escuro das noites sem lua,
Procurando estrelas
Vou de rua em rua…

Mas só a saudade de um outro lugar
Dirige meus passos,
O meu caminhar…

Saudade de um mundo mais leve, mais puro,
Saudade de amanhã,
Saudade do futuro!

                                         ««««««««««««««««««««

Há em mim uma saudade de outras eras,
Outros futuros,
Outras Primaveras…

            O dia de hoje é um pequeno passo no tempo.
            Este momento da minha vida é isso mesmo - um momento! Um momento na sequência de momentos que se encadeiam para formar a minha existência como individualidade, um piscar de olhos na eternidade. Mas é um momento importante – aquele em que sacudi a névoa da inércia e decidi estar aqui, convosco e comigo, partilhando a minha saudade.
            Nos momentos passados, aqueles que precederam a nossa vinda actual, permanecemos por mais ou menos tempo no mundo da realidade - lá ,onde o sol tem outro brilho, onde as flores não murcham, onde, para aqueles que aceitam a lei do amor, a Primavera oferece o aconchego cálido das manhãs perfumadas e o brilho de opala do céu sem limites. Daí nos vem esta inquietude, este desconforto de nos acharmos num mundo onde tudo nos agride, onde precisamos de subir degrau a degrau a escada da paciência, o muro da compaixão, a torre da caridade.
            O mundo que nos preparou a vinda tem janelas para este, mas só se vê de um lado - do lado de lá. E no lado de lá aprendemos as lições, fizemos promessas, estabelecemos planos de vida, combinámos encontros e aprendizagens; do lado de lá tudo parecia fácil, porque podíamos ver as condições em que tudo se iria desenrolar, e confiávamos que todo o conhecimento se manteria no nosso consciente, à espera para poder ser consultado quando necessário; no lado de lá achávamos que iríamos resistir facilmente às tentações, encontrar o caminho certo, as companhias ideais, as oportunidades perfeitas… e se, por acaso, nos deixássemos abater pelo pessimismo, lá estariam os amigos para nos levantar o ânimo, para nos ajudar nas decisões a tomar, para nos mostrarem a inutilidade das lágrimas e o valor das oportunidades.
            É certo que também tomámos consciência das dificuldades… também escolhemos males físicos ou abrimos o caminho às dores morais como forma de aperfeiçoamento próprio, como meio de combater defeitos antigos ou tendências menos boas… também nos preparámos para reatar laços fraternais com companheiros difíceis, para receber no colo maternal amigos necessitados ou credores de outras vidas… também nos foi dito que o corpo material funcionaria como barreira entre nós e o mundo que por momentos iríamos deixar… mas nada disso era importante! Importante era não deter a marcha do progresso, não adiar a necessidade de aperfeiçoamento, de evolução, de subida na hierarquia dos que aspiram à luz - e cá estamos nós!
            - Não será a inquietação indefinida de que muitos de nós sofremos a saudade do aconchego abençoado do lar que tem janelas para este lado?
            - Ou será o desconforto de sabermos que há coisas que devíamos recordar sem que disso sejamos capazes?

Os meus pés anseiam pela relva fria,
Por correr descalços
Na tarde macia…

            Na memória da minha imaginação, o mundo do lado de lá é verde, azul, castanho, dourado… é verde a relva, de um verde-esmeralda, macia como cetim e perfumada como se fosse acabada de cortar a cada momento! Nem preciso de fechar os olhos para vê-la ondular suavemente na brisa da tarde, para vê-la reflectir os últimos raios dourados do sol, para sentir nos pés descalços a sua carícia fresca e reconfortante…

Tilinta em meu sonho o cantar das águas
Que no seu cantar
Desfazem as mágoas..


            A minha saudade mergulha nas águas…
            Os rios e ribeiras sempre foram, desde a minha meninice, os meus lugares preferidos. Era para junto da água que eu ia chorar as minhas tristezas, curar as minhas birras, dançar as minhas alegrias. Por isso eu "sei" que no lado de onde vim a água é importante: ela renova os nutrientes da terra; é seiva de vida para toda a criação; é veículo que arrasta as energias negativas para que a terra as purifique; transporta em si as energias positivas para que cheguem a quem delas necessita; é berço, é cura, é refrigério, é música, é alegria…
           
            No lado de lá, mergulhamos na água e fazemos parte dela - a água não é uma ameaça em nenhum momento. Mas aqui,

Estendo os meus braços e não acho o verde,
O verde de jade
Que no mar se perde…

            Até os mares estão a perder a pureza das suas águas… são os detritos radioactivos, a poluição urbana, o petróleo tornado praga… E porque o mar já não é aconchego neste mundo perturbado, e porque os rios são rios do sangue das vítimas indefesas dos matadouros, e porque as ribeiras são charcos onde as rãs já não coacham, dou graças pela terra que suporta os meus passos e me permite subir os degraus da minha saudade. E aqui, na Terra,

No veludo escuro das noites sem lua,
Procurando estrelas
Vou de rua em rua…

            E sigo de experiência em experiência, tentando e tentando, subindo e descendo, procurando as estrelas que sei que estão a brilhar para mim… Mas perdi algures, em algum momento, ao longo das caminhadas que a este momento me conduziram, a capacidade de ver as minhas estrelas…ou nunca tive essa capacidade, mas sinto que ela está lá, à minha espera, no final de qualquer rua das ruas que compõem o fio por desenrolar da minha existência.
            Sigo no escuro das minhas promessas - sei que elas foram feitas, mas esconderam-se de mim por detrás da matéria que envolve quem eu sou. Nos momentos de frustração por não saber o que faço aqui, o que deveria fazer aqui, apetece-me dobrar-me sobre mim mesma, meter-me num envelope sem remetente nem direcção e deixar correr o tempo…
            Algo me segreda que não deveria ser assim,

Mas só a saudade de um outro lugar
Dirige meus passos,
O meu caminhar…

            Tropeçando aqui e além, perdendo, por vezes, muito tempo nas voltas e atalhos que me parecem mais amplos e floridos, mas que me afastam do caminho recto, mais estreito e pedregoso, que conduz ao lago azul cobalto da consciência tranquila, procuro também o caminho que conduz aos jardins da fraternidade.
Na memória da minha imaginação, este caminho de terra castanha, acolhedora e farta, onde florescem papoilas e malmequeres, violetas e rosas de toucar, abraça-se a um regato de águas límpidas que deslizam sobre seixos da cor dos brilhantes, das safiras, dos rubis, reflectindo no verde-castanho das margens as mais belas cores, que nem sequer têm nome na minha linguagem.
Mas o caminho é difícil de encontrar… e em cada dia, por um motivo ou por outro, vou adiando a sua busca: é o trabalho, a rotina, as obrigações - reais ou imaginárias - que se criam; são as contrariedades, a doença, a dependência; são os hábitos, a falta de tempo, a incompreensão; o adiar para um amanhã que não se sabe muito bem quando será… Tudo isto forma um manto de nevoeiro que me esconde o caminho que eu devia procurar. Por vezes, em breves lampejos, sinto que o encontrei, e que é lá que quero ficar… porque este caminho recorda-me os caminhos do mundo do lado de lá da vida, do mundo que tem janelas para este lado. E eu quero voltar para esse mundo. Por isso a minha inquietude, a minha saudade, a

Saudade de um mundo mais leve, mais puro,
Saudade de amanhã,
Saudade do futuro!

Maria de Deus

1 comentário:

Ledieu disse...

Adorei ler este texto,verdadeiro e sem artificios,enriqueci.Literalment.Obrigada!