O UNIVERSO CRESCE EM TORNO DAS LEIS DO AMOR.
TU ÉS UM MICROCOSMOS!
Entretida a analisar, ou melhor, a SENTIR esta emoção nova para mim, mal me dou conta de que a tela mudou e estou agora algures num oceano de ondas frescas e verdes. Penetro a água e a água penetra em mim; toco os peixes, o plâncton, os corais, as medusas, as orcas e os golfinhos e sou tocada por eles com suavidade, ternura, alguma surpresa nos olhos arregalados e, sobretudo, com amor. Sinto esse amor como algo físico e, ao mesmo tempo, sublime, terno, profundo e simples: sinto-me amada!
De surpresa em surpresa, vejo-me a adentrar montanhas submarinas, a brincar com vulcões submersos, a jogar às escondidas com golfinhos e gaivotas… Gaivotas? Sim, gaivotas, pois, sem transição, eu estou em pleno ar, deslizando como sopro de brisa, espalhando-me como nuvem soprada pelo vento, enroscando-me ao redor de uma gota de chuva, mergulhando na luz do arco-íris.
Sobem da Terra músicas e perfumes, gritos e risos, o som dos canhões, a língua ardente dos fogos, o choro cadenciado da fome, a alegria das festas, o grito ansioso dos animais que avisam as crias do perigo, o pipilar das andorinhas que fazem a corte às fêmeas, o choro vibrante e irritado dos recém-nascidos, o repenicar de um beijo numa face enrugada, o som da água na cachoeira… e eu sobrevoo todos os sons, todos os cheiros, todas as cores com a paz tranquila das gaivotas… pois eu sei que todos aqueles sons, cheiros e cores pintam a tela da vida, dão-lhe brilho e cor, movimento e significado… sei que a vida se tece de contrastes e que ambas as faces da moeda são manifestações de amor… e sinto-me amada!
De olhos fechados, deixo-me embalar nas asas das gaivotas (ou será do vento suão?) e passo através de bosques e montanhas, picos nevados e florestas impenetráveis… sinto as cócegas da terra, a frescura da neve, o verde acre e curador, o toque macio dos pássaros nos ninhos; sinto o sabor dos frutos verdes e dos maduros e penetro o segredo das sementes; um glaciar preguiçoso conta-me coisas sobre os ciclos da vida e da Terra e uma raposa prateada fala-me dos seus tormentos para alimentar os filhotes enquanto me enrola ao pescoço, num gesto ternurento, a sua longa cauda da cor da neve (gesto “coquette” de mulher para mulher!) – sinto-me amada!
Seria o sol a brilhar na neve, ou seriam estrelas o que eu via? Acariciando o sentimento de Amor em mim, nem me tinha dado conta de que a tela tinha mudado de novo: eu salto agora de estrela em estrela – eu própria estrela brilhante – num universo leitoso e polvilhado de luz. A cada passo/salto que dou, a estrela em que poiso emite uma nota musical que fica a vibrar atrás de mim e à minha volta, criando a mais espantosa, a mais maravilhosa sinfonia que alguém jamais ouviu. Cada nota musical ressoa em mim, em cada imensa partícula do imenso ser que eu sou… e, reverentemente, devolvo ao universo das estrelas, tocada numa outra oitava, a música que me oferece – faço o contraponto, ensaio a coreografia, sou actor na peça… e sinto-me amada!
Tantas estrelas a brilhar! Tantas constelações à minha frente! Tantos sistemas e tantos sóis! Tantas cores e brilhos! Tantas formas! Não sei onde estou! Há um som ritmado, uma cadência, uma como que música de tambores vigorosamente percutidos… Atónita, dou-me conta de que estou dentro de mim! Passei, sem me aperceber, do infinitamente grande para o infinitamente pequeno! Estou dentro do meu corpo e, do meu microscópico ponto de vista, eu sou um microcosmos. Ou melhor, deste meu microscópico ponto de vista eu sou um Universo – cada órgão é uma galáxia com imensos sistemas, muito ordenadinhos; cada célula é um astro, cada artéria é uma estrada de luz, cada fibra um condutor de energia, cada fluído uma reserva de Amor! Avisto ao longe uma espantosa central eléctrica que emite uma ainda mais espantosa aurora boreal… e sei que é o meu cérebro; há constelações incrivelmente brilhantes… sei que são glândulas. Todo este Universo brilha, e vibra, compõe uma sinfonia de sons, de ruídos, de pausas, sem cessar… sem cessar…
Relâmpagos de luz cruzam o espaço em todos os sentidos e em todas as direcções, a todo o momento.
Marcando o compasso desde o primeiro instante da criação deste Universo, escondido numa catedral de paredes nebulosas, brilha o cronómetro que foi acertado pelo relógio do Criador Maior. Toda esta luz me ofusca; toda a maravilhosa sincronia de funcionamento de tantos astros diferentes que não colidem, antes ajustam as suas órbitas quando há risco de colisão, me infundem um sentimento de profundo respeito e admiração – a ordem coexiste com a diversidade; a adaptabilidade responde ao imprevisto; a precisão impõe-se ao caos!
Vou de surpresa em surpresa: de vez em quando, ondas de luz das mais variadas tonalidades, cores e intensidades percorrem o Universo que observo; vagas de sombra, também. Interrogo-me, quase sem de tal me dar conta, de onde virão, e a resposta ressoa em mim, instantaneamente: são os reflexos dos pensamentos, os produtos da mente, e podem afectar, aliás, afectam a perfeita ordem e harmonia do Universo – de forma positiva, ou de forma negativa!
Eis que uma luz, mais brilhante que todas as outras luzes, uma luz que parece ter vida própria, e perfume, e cor, e doçura, e ternura, e Amor se espalha por cada recanto do Universo. Nem precisei de formular a pergunta: SENTI que o Ser – EU – estava em prece: uma prece de louvor e gratidão para com o Criador da perfeição sob o meu olhar. A Luz que me envolveu, me preencheu, me embalou, era a minha Alma, era EU! Senti-me incondicionalmente amada!
Dos meus olhos fechados – os meus olhos físicos – escorriam lágrimas. O sabor salgado trouxe-me de volta e, lentamente, abri os olhos. Fiquei quieta, sem conseguir pensar… parece-me até que sem conseguir respirar.
Devagarinho, deixo que as imagens se desvaneçam até que se assemelhem a fiapos de nuvens tocadas pela luz do sol poente. Não conseguiria pensar, ou falar, ou escrever se as imagens continuassem vivas em mim: o seu brilho absorveria toda a minha consciência.
Na penumbra da minha humanidade, sinto ainda a voz da minha Alma a segredar: “Porque em Amor procuraste a Verdade, em Amor ela te foi revelada. O Amor é a Lei comum a toda a Criação, em todos os Universos. É uma Lei que tem muitos parágrafos, mas todos eles respeitam o Espírito da Lei! O Legislador Maior enquadrou na Lei o crescimento harmonioso do macro e do micro, rumo à alegria suprema da reunificação com os Seus Filhos.”
Desta vez, fiquei sem fala!








