terça-feira, 29 de novembro de 2011

Amor e Amores.


SEM A INTELIGÊNCIA DO AMOR,
NÃO SUPORTARÁS AS PERDAS DO AMOR EGOISTA.

             Neste momento, eleva-se de dentro de mim um grito: “Amor! Vem em meu auxílio! O que é que quer dizer aquela frase ali em cima?”
            Uma vozinha nervosa responde, também dentro de mim: “Qual... dos amores... queres que venha?”
            “Como, qual dos amores? Amor é Amor!” oiço-me a responder de volta.
            “Nnnão é bem assim…” – diz a mesma vozinha, parecendo cada vez mais nervosa – “… há o amor incondicional, o amor humano, o amor divino, o amor de mãe, o amor inconsequente, o amor inteligente, o amor egoísta…”
            “Chega! Chega! Chega! Ainda me estás a confundir mais! Mas, já que há esses amores todos…”
            “E mais alguns…” – a voz é cada vez mais sumida.
            “… já que há esses amores todos, então eu peço ajuda aos dois amores em causa: o amor inteligente e o amor egoísta.”
            “Estou aqui!” – duas vozes doces, em simultâneo… e, mais uma vez, algures dentro de mim! Uma das vozes, porém, adiantou: “Eu sou Amor… e não percebo porque é que me chamam egoísta! É verdade que gosto de ser retribuído; também é verdade que só me manifesto em circunstâncias que me agradem; é mais verdade ainda que costumo desaparecer quando as coisas começam a complicar-se; também não digo que não, se me disseres que não gosto de dividir…”
            “Não será partilhar?” – perguntou a outra voz doce.
            “Não. É mesmo dividir. Partilhar, eu partilho, quando não tenho que ceder nada. Agora quando tenho que abrir mão de algo que é meu, aí as coisas mudam de figura. Prefiro sair, a dividir.”
            “E o vazio que deixas quando sais, não te incomoda?” – a outra voz doce continua a inquirir. E eu a assistir!
            “Não! Por que haveria de me incomodar? Outro amor irá preencher o lugar que eu deixei… e eu outro amor encontrarei. Pois, porque é bom que saibas que eu só me dou com amores, não com outros sentimentos. Por isso, não percebo por que é que me chamam egoísta.”
            “Talvez se eu tentar explicar…”
            “Bem, por alguma razão te chamam o amor inteligente!... acho que, por esta vez, vou ouvir o que tens para dizer. Mas, aviso já, se a conversa não me agradar, ou se for demorada, fecho-me de novo na minha concha – em sentido figurado, é claro!”
            A outra voz doce pigarreou um pouco, suspirou (e eu a assistir!) e começou: “Vou, então, falar-te do teu 'caso' com a nossa hospedeira (Eu!). Lembras-te daquela vez, na escola primária, em que incendiaste o seu coraçãozinho com a imagem de um companheiro de classe bem parecido, sorridente e… cábula?”
            “Hum, hum.”
            “E lembras-te de que, no final do ano escolar, depois de ela ter ajudado o coleguinha a fazer todos os trabalhos de casa (a copiá-los, esclareci eu – mas não me ligaram importância, os atrevidos!) apagaste o incêndio derramando sobre o seu coração uma banheira de água fria, assim, tão de repente como o sorriso desdenhoso que lhe atirou um ‘ainda bem que já são férias. Já não preciso mais de ti`?”
            “Hum… mas se ele não precisava mesmo! Amou enquanto durou! E também me lembro que lá estavas tu, sempre a segredar-lhe que não valia a pena chorar, que ela iria passear nas férias e encontrar outro namoradito que não fosse tão egoísta, que era muito nova, que era um amor que devia sempre lembrar com carinho por ter sido o primeiro, e blá, blá, blá…”
            “E lembras-te de outra vez, na adolescência (a minha adolescência!), em que colocaste na sua cabeça e no seu coração o talento, as palavras meigas (enganadoras, rectifiquei eu) e a cortesia do rapazito que, pela primeira vez, lhe segurou a mão numa carícia acanhada? Lembras-te? Não demorou muito para que lhe roubasses tudo isso, pois eras partilhado por outra adolescente.”
            “Aí está! Partilhado, mas não dividido! E, de resto, nesse caso dividimos – tu e eu – os lucros. Ele, o tal rapazito, ficou a perder – perdeu as duas namoradas. Tanto lhe segredaste (a mim!) que não valia a pena chorar por uma traição, que ele não merecia as lágrimas, que era ainda muito nova, que iria descobrir, mais dia menos dia, o amor verdadeiro, e blá, blá, blá, que era mais inteligente, mais sensato, procurar a amizade da alegada ‘rival’ e não consumir-se em sentimentos azedos, e blá, blá, blá, que ela resolveu seguir os teus conselhos e procurar a ‘outra’ para a pôr a par da duplicidade. E lembro-me que tu ganhaste
 porque ela ganhou uma amiga para a vida, e eu ganhei, porque ela não me deitou culpas – converteu-me em motivo de risota. Devo confessar que fiquei ofendido!”
            “Ora aí tens uma prova do teu egoísmo!” – respondeu o amor inteligente. E continuou: “O amor Amor não se ofende jamais com a alegria, a libertação, a felicidade do seu hospedeiro. Muito pelo contrário – alegra-se, rejubila, acende estrelas nos seus olhos, coloca flores nos seus lábios e mel no seu coração!”
            “Pois, sim! Mas isso é só uma prova. Só uma.”
            “Só uma? Poderia continuar a desfiar aqui o rosário das perdas que o teu comportamento a obrigou a suportar. Não estou a fazer julgamentos, repara! Mas, como não entendias por que te chamam egoísta… estou a tentar que entendas. Com o entendimento, pode ser que mudes de atitude e deixes de pensar só em ti e no que te convém, ou te dá prazer.”
            “Pois, mas eu também me lembro daquela vez em que coloquei flores e mel nos seus lábios e acendi estrelas no seu coração. Isso não conta?”
            “Claro que conta!” – respondeu a outra voz doce. E acrescentou: “A tua primeira intenção é sempre maravilhosa. A tua primeira acção é sempre mágica! Os problemas começam quando surge a realidade. No teu mundo de fantasia, tudo tem que ser perfeito, mas… não é essa a vida real. Eu sempre tento fazer a ponte entre os dois, entre as duas realidades, mas…”
            “Sim, mas daquela vez…”
            “Daquela vez, depois de a teres convencido de que tinha encontrado o Amor da sua vida…”
            “E encontrou!”
            “Pois encontrou. Mas deixa-me continuar.”
            “Não sei se quero ouvir…”
            “Ouvirás, sim! Vai fazer-te bem.”
            “Se tu o dizes! Tu és inteligente…”
            “Sem ironias, por favor! Falo muito a sério. Então, como eu ia dizendo, depois de a teres convencido de que tinha encontrado o Amor da sua vida, provocaste a ausência do dono desse Amor, provocaste o seu silêncio, como se, simplesmente, se tivesse desvanecido no ar…”
            “Mas foi por uma boa causa! E não foi para sempre!”
            “Não, não foi para sempre. E sim, foi por uma boa causa. Mas, e o sofrimento da perda? E a dor da ausência? E o espanto do silêncio? Mais uma vez te digo: não há aqui julgamento, pelo que não há apelo ao sentimento de culpa – só à compreensão. E também te digo que, dessa vez, esgotei todos os meus argumentos. Esgotei todas as minhas forças. Temi, mesmo, que o sentimento de perda fosse mais forte do que eu. Então, pedi ajuda a um Amor Mais Forte e ao Amor Maior.”
            E continuou:
            “O Amor Mais Forte, ajudado pelo Amor Maior, trouxe-me novos argumentos, aumentou a minha força e o meu entendimento e, pouco a pouco, fui sendo capaz de acender luzinhas de esperança na noite do seu coração…”
            “Ah! Essas luzinhas… eu vi-as!”
            “… fui conseguindo abrir portas à aceitação… fui conseguindo segredar-lhe que eu estava ali, sempre presente, sempre no seu coração, quer a perda fosse permanente, quer não. Pedi ao Tempo um pouco do seu bálsamo curador e derramei-o, delicadamente, nas feridas. Pedi ao Sol um pouco do seu brilho e coloquei-o nos seus olhos. Pedi à Vida as carícias ternas das mãos das crianças e coloquei-as no seu colo. Ajudei-a a construir o suporte onde colocou o sentimento de perda…”
            “As luzinhas… eu vi-as!”
            “Pois viste! Mas ouviste alguma coisa do que tenho estado a dizer?”
            “Sim, sim, mas… as luzi…”
            As vozes doces perderam-se no silêncio dentro de mim. É estranho este silêncio, este sentimento de perda, de vazio… mas logo recordo o diálogo escutado e um sentimento amoroso de compreensão me preenche: as vozes doces acudiram ao meu grito, ao meu pedido de ajuda e, cumprida a sua parte, regressaram ao seu mundo mágico. Compete-me a mim, agora, usar a inteligência do amor para suportar a perda da sua magia.
            No mundo interno de cada ser humano coabitam variadas formas de amor, para além do AMOR. Eu sei – eu ouvi dois deles!
            Em bicos de pés, no cimo do AMOR, eu lanço um apelo a todos vós, companheiros/as da viagem pela Vida:
            - Por favor, oiçam o vosso Amor Inteligente! Ele terá sempre a força necessária para vos ajudar a suportar as perdas do Amor Egoísta!
            “E assim é! Shhh!... EU SOU O AMOR!
 M.Deus


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